Foto: João Paulo Guimarães/Mídia NINJA

“Todos estão falando que está sendo pior que o ano passado. Aqui já passou de 20 mil hectares que pegou fogo. Então está bem preocupante”, explica o Adriano Rocha, que atua como brigadista voluntário na região da Chapada dos Guimarães, à 15 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso.

Para se ter uma ideia, o estado do Mato Grosso, um dos mais afetados, registrou aumento de 129% nos incêndios em apenas dois anos. Já o estado do Acre, que passou os últimos 15 anos sem registrar aumento significativo das queimadas, agora ocupa a quarta posição entre os estados da Amazônia com mais registro de focos de calor. Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

A tragédia climática é tão grande que os números chocam a comunidade científica dentro e fora do Brasil. Mas os primeiros a sentirem os impactos do fogo estão na linha de frente atuando contra as chamas, e, para eles, não existe número que defina o nível de destruição deste ano, nem o descaso imposto pelo governo federal no suporte ao combate.

No Mato Grosso, onde Adriano combate às chamas, a Comissão Externa do Congresso Nacional, criada para acompanhar os casos de incêndios no Pantanal, identificou apenas 172 pessoas de todas as instituições oficiais operando na região. Destes, menos de 100 eram brigadistas com treinamento específico para combate. A legislação prevê que nas regiões que se combate incêndios a cada 500 moradores um brigadista deve estar atuando.

A redução de 58% na verba federal para ações de combate não atinge somente brigadistas, mas desmantela postos de controle, pontos de apoio ambiental, além de afetar em cheio a capacidade logística de levar água para estes locais em chamas, colocando o Brasil entre os piores no combate aos incêndios florestais.

Adriano combate incêndios desde 2019. Ele conta que já faz mais de um mês que equipes de mais ou menos 20 a 30 pessoas se revezam para impedir que o fogo avance sobre o parque da Chapada dos Guimarães, uma das poucas áreas de preservação ambiental em meio a quilômetros de pastagens e plantações na região considerada ‘celeiro’ do país.

Apesar do esforço, a fumaça das queimadas não só encobre cidades próximas do parque nacional, como também já alcançou pelo menos cinco países vizinhos, e atingiu em cheio o maior reduto de onças-pintadas do mundo. “É trabalho de formiguinha. Têm sido exaustivo, muito! Conforme as proporções vão aumentando e recebendo atenção midiática, o número de voluntários aumenta, isso tem ajudado”, conta o brigadista.

“Semana passada pedimos ajuda dos moradores locais, que já ajudam bastante. Não tinha roupa para substituir, dois dos meus colegas já tinham sido atingido por chamas e não tínhamos como continuar combatendo o fogo. Foi difícil aquele dia pois as roupas que conseguimos não serviu, e era muito arriscado continuar”, explica um brigadista que combate o fogo no Mato Grosso, e que preferiu não se identificar.

“Já tentei cobrar dos comandantes locais, os militares que temos contato e que nos passam instruções, mas até agora não tivemos resposta sobre a reposição dos itens. Capacete também está em falta”, diz.

Em meio aos incêndios, ministério aplica apenas 0,4% de orçamento

Não é só o Pantanal e a Amazônia que estão pegando fogo neste período de estiagem e tempo seco. Em diversas partes do mundo, como na Califórnia e áreas da Austrália, também registram focos intensos de calor. Mas só no Brasil quem combate às chamas conta com menos de 0,4% de recursos disponíveis aplicados para operações ambientais de preservação.

Segundo levantamento do Observatório do Clima, que utilizou dados públicos do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento, nos primeiros oito meses do ano, o Ministério do Meio Ambiente tinha em caixa mais de R$ 26,5 milhões livres para investir, mas usou pouco mais de R$ 105 mil, o que corresponde a 0,4% do total.

O orçamento que já vem sendo reduzido desde 2017 serve, por exemplo, para planejar ações de prevenção e combate aos desastres ambientais, incluindo o combate às queimadas. O plano que trata de biodiversidade, por exemplo, tinha no orçamento mais de R$ 1,3 milhões. Mas, até o fim de agosto deste ano, o ministério gastou só R$ 50 mil. Resultado: 3,6% do total.

Brigadistas entre o fogo e o descaso

O descaso se reflete na falta de equipamentos adequados para combater incêndios, além do aumento de efetivos de brigadistas em pontos estratégicos, como em Chapadão do Céu, interior de Goiás. No dia 21 de agosto, o brigadista Wellington Peres Silva morreu após ter 80% do seu corpo queimado em um combate no Parque Serra Dourada, no limite do município goiano.

O Ministério do Meio Ambiente chegou a enviar uma nota de pesar para os familiares de Wellington, mas não explicou o motivo de ter reduzido a zero o investimento em capacitação, treinamento e equipamentos adequados de proteção, de acordo com levantamento no Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento, disponível no site do MMA.

Em nota, o governo de Goiás disse estar prestando auxílio para a família do brigadista, mas não respondeu o questionamento da reportagem sobre o valor empenhado pelo executivo estadual para ações de combate às queimadas.

Multas acompanham orçamento e despencam, apesar de alta nos incêndios

Apesar da alta das queimadas, e da legislação brasileira exigir o ressarcimento e até a prisão de envolvidos, as multas por crimes ambientais despencaram desde que a gestão do Ministério do Meio Ambiente começou a ser conduzida por Ricardo Salles.
O levantamento do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) divulgado na última semana, aponta uma redução de 48% nas autuações por crimes contra o meio ambiente no Pantanal. Em Mato Grosso, por exemplo, a queda representa uma redução de 52%.

Uma investigação conduzida pela Polícia Federal coloca fazendeiros em relação direta com a origem dos incêndios no Pantanal, que até o momento consumiram pelo menos 3 milhões de hectares, sendo 500 mil entre a semana passada e esta, conforme o Inpe. A prática de queimadas está proibida em todo o Brasil desde o final de julho.

Se mais ao sul os incêndios têm como causa a derrubada de área verde para plantação de soja e criação de gado, em Santarém, no Pará – uma das quatro cidades com mais focos de calor em agosto de acordo com o Inpe – essa tragédia tem como causa a especulação imobiliária, em grande medida praticada por grileiros.

No Pará, uma investigação da PF também nomeia grandes proprietários de terras como autores de incêndios recentes na mesma região que deu início ao ‘Dia do Fogo’, que ganhou as manchetes mundiais após chamas devastarem a Área de Preservação Permanente de Alter do Chão, em agosto de 2019. Os investigados podem ter que pagar até R$ 50 milhões pelo crime ambiental caso forem condenados pela Justiça.

“Enquanto os governos não entenderem que é primordial injetar investimentos contra as queimadas, a cada novo ano os dados serão piores e teremos de viver com esse descaso absurdo. Nós sozinhos não temos força contra o fogo”, defende Marluce Ribeiro, ex-bombeiro militar que atuou contra incêndios no sul do Amazonas no início dos anos 2000.

Para João Romano, brigadista na região do baixo Tapajós, no Pará, “atuar no combate aos incêndios é poder fazer algo com as próprias mãos em prol da biodiversidade e do território. É se esgotar e ultrapassar os limites físicos do seu corpo sem ao menos se dar conta, pois amor pela floresta fala tão alto, que você só dá conta quando se encerra a operação, ou o combate”, finaliza Romano, esperançoso em dias melhores.